SOU CEGA E VIVER É O SEGREDO

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Aprenda a gostar de si, Respeite-se

CEGA, APRENDI A ME AMAR!

PODCAST

Certamente este é o um dos textos mais corajosos que eu já escrevi, pelo menos para mim, e leva esse título, porque vez ou outra eu sinto o peso do fracasso, da angustia e da tristeza. Não vá pensando você, que eu sou esse doce sorridente todos os dias, e vamos combinar falar deste assunto não é tão fácil como parece.

O DESPERTAR

Esses dias, circulando pela internet conheci Gabriela – carinhosamente chamada de Gabi, uma jovem moça de Minas Gerais – Janaúba, Região Norte de Minhas, lá para os lados de Montes Claros. Fui invadida por uma foto em sua página, foto essa de muita coragem, onde ela coloca da “Ditatura da beleza”, no chinelo.

#PraCegoVer Gabriela é cega, magra, tem cabelos pretos e longos, é morena está com um leve sorriso no rosto, veste uma camiseta de decote bege. Na foto Gabriela comenta se amar sem suas próteses. FIM DA DESCRIÇÃO

Olhar essa foto para mim e para todos as circunstâncias que vejo no mundo foi libertador. Gabi me fez olhar para dentro, me fez encarar todas as minhas fraquezas e nesta luta que durou alguns minutos entre eu e a imagem, ela me fez acreditar e descobrir o AMOR PRÓPRIO.

Resolvi chamar a Gabi para conversar e descobri que ela tem muito a nos ensinar.

Deficiente visual, e ainda bebê, descobriu que tinha RETINOBLASTOMA, um câncer ocular onde uma célula sofre uma mutação e passa a se multiplicar descontroladamente.

Nasceu enxergando, mas aos seis meses perdeu a visão e por isso não tem memória visual.

Raquel Moreno – Você já enxergou Gabi?

Gabi – Gostaria de poder enxergar as maravilhas do Universo, queria eu um dia ver o azul do céu e também o azul do mar, mas enquanto não posso, ponho a me imaginar. E se sei que são azuis é porque ouvi falar, e o que é o azul? Tão difícil de explicar, prefiro dizer que eu SINTO O AZUL, entre uma infinidade de outras belas cores.


Raquel Moreno – Fale mais das suas próteses

Gabi – Comecei a usar com apenas 3 anos de idade, devido ao RETINOBLASTOMA, meus olhos foram literalmente removidos, essas próteses recebo do Hospital das Clínicas (HC) em São Paulo, e como criança cresce rápido, eu precisava trocar as próteses a cada 6 meses, e depois de adulta troco a cada dois anos.

Em 2015 uma grande conquista, recebi a primeira prótese no CENTRO DE REABILITAÇÃO VISUAL da APAE de Janaúba, as próteses são fornecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), eles tiram o molde, encaminham para São Paulo e eu recebo aqui. Meu pai escolheu a cor desta última prótese, verde cor de mel.


Raquel MorenoQuero falar com você sobre um assunto chato, mas muito necessário – O PRECONCEITO

Gabi – A vida me ensinou a tirar isso de letra, muitos preconceitos começam em casa mesmo, muito perto da gente, na escola, na igreja, praças, festas, por ser cega.

São aberrações sem fim, existem aquelas pessoas que pensam que sou SURDA, e por estar quase sempre com alguém, nunca se reportam a mim: – Quantos anos ela tem? Ela nasceu cega? Ela é mesmo admirável e eu ali ao lado, ouvindo tudo.

Já ouvi também – “ceguinha”. (cega)

A sociedade me cobra muito sobre um namorado e se ele será cego.


Raquel Moreno – Qual a melhor forma de combater o preconceito?

Gabi – Na minha opinião é começar a ter sensibilidade e valorizar as diferenças, cada um tem suas habilidades e suas dificuldades. Eu tenho dificuldade para andar sozinha na rua com minha bengala, mas tenho uma habilidade incrível com o braile, e nem todos cegos seguem esta ordem.

As pessoas que praticam o preconceito e a discriminação, quero assim acreditar, que seja por falta de conhecimento, falta de sensibilidade e empatia. Confesso que sou extremamente sensível para esse tipo de atitude.


Raquel Moreno – E o que você nos diz sobre a inclusão?

Gabi – Ainda bem que existe a inclusão nas escolas regulares, na minha época era mais difícil pela manhã estudava na escola comum, e a tarde em escola especial APAE, na regular não havia livros adaptados, não tinha computadores com recursos de acessibilidade.

SOU CEGA E VIVER É O SEGREDO 2

#PraCegoVer – Foto Gabi sentada em uma cadeira verde, veste saia listrada preto e branco, sob uma bancada branca, ela digita em um teclado conectado a um computador. Fim da Descrição

No ensino fundamental, eu tinha uma LEDORA, enquanto a professora escrevia no quadro, ela ditava as palavras para mim escrever na reglete (instrumento para escrita em braile), e então fiquei sem auxiliar porque a Lei só permite auxiliar para quem tem múltiplas deficiências, no final das contas eu só me sentia INCLUÍDA na escola especial.

Hoje é mais diferente, existem mais recursos, gosto dos jogos de lógica, sempre estou nas redes sociais, com o leitor de tela, consigo explorar muita coisa, estando cega.


Raquel Moreno – E sobre Políticas Públicas

Gabi – O Centro de Reabilitação visual da minha cidade, é um exemplo de política pública voltado ao deficiente visual. Lá eles nos oferecem atendimentos especializado. Disponibilizam órteses e próteses, atendimento pedagógico, ensinando o uso de mídia, e orientação e mobilidade, tem toda uma equipe multiprofissional, Fisioterapeutas, TO, Fonoaudiólogas, Nutricionistas, Oftalmologistas, Psicólogo, etc. Mais ainda está muito longe de ser o que a gente precisa. .

Enfim o deficiente visual ainda é muito desvalorizado. Está precisando de uma melhora considerável nas políticas públicas para os deficientes visuais, principalmente no mercado de trabalho.

PERCEBERAM A IMPORTÂNCIA DO AMOR PRÓPRIO?

Certamente você já viu uma criança dançando e a graça de seus movimentos que fluem naturalmente, essa é a harmonia típica de quem tem amor próprio, de alguém que está conectado a si mesmo.

DESCRIÇÃO DO VÍDEO
Em grande quintal, Gabriela que é cega, esta em uma bicicleta vermelha, e sai a pedalar com sua professora ao lado. Gabriela veste bermuda branca, blusinha estampada, e sua professora veste preto correndo atrás da bicicleta orientando a direção. FIM DA DESCRIÇÃO

Quando você se ama, você ama os outros e se torna compassivo, você conquista o RESPEITO POR SI, e ao mesmo tempo o respeito e admiração pelos outros, com Gabi eu aprendi que só assim é possível ter plenitude, e perder o medo de falhar, e então nos tornamos fortes e resistentes.

Se você procura transformar a falta de crença em si mesmo em autoconfiança pura, será suficiente, pense nisso!

Gratidão a Deus, por conhecer você Gabi, espero que um dia a gente possa se ver e nos abraçar.

Muito Obrigada por esta entrevista!

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